Caça as raposas da PY2KJZ
(Atualizado)
Publicado 07. Sep, 2016 por PY2JF - João Roberto como Artigos, Repetidoras
Por João Roberto S. G. Ferreira, PY2JF.
A repetidora PY2KJZ, que opera na frequência de 146.770MHz em Americana – SP, foi reformada há poucas semanas e apresentava excelente rendimento, permitindo contatos em baixa potência com cidades em distâncias superiores a 100Km. Mas há pouco mais de 10 dias notamos grande deterioração em seu desempenho, não sendo mais possível operação portátil local e muito menos comunicados distantes. Apenas estações móveis muito próximas ou estações potentes conseguiam operá-la. Um dos primeiros indícios de interferência constante em sua frequência de entrada, 146.170MHz, foi a ausência do bipe de cortesia na retransmissão. Quando um sinal chega no momento em que o bipe deve ser emitido, ele é inibido, impedindo assim que ele aconteça em cima das comunicações. Como o bipe havia desaparecido e não voltava mais, a chance de haver uma interferência continua era grande.
Na primeira oportunidade que tivemos, que foi no final de semana seguinte, eu e o Junior, PU2LAA, fomos até a repetidora investigar o problema. Para nossa surpresa, um sinal com largura de 25KHz constante de -105dBm (S7) estava presente em sua entrada, mantendo nosso receptor com o squelch aberto o tempo todo. Tratava-se de uma portadora sem modulação de áudio. Essa, portanto, era a razão pela qual apenas sinais fortes, acima de S7, conseguiam operar a repetidora.

A primeira medida tomada foi tentar identificar a origem do sinal interferente com a ajuda de uma antena direcional portátil conectada a um HT Yaesu VX-6R. Esse HT tem um S-meter fácil de visualizar com várias divisões em sua escala. Inclusive usamos aquela antena que foi montada para o artigo de caça à raposa da edição número 10 da revista CQ.
Identificamos rapidamente que o sinal se originava nas dependências de uma empresa localizada a apenas 200m de nossa antena. Trata-se de uma empresa relativamente grande, com área superior a 50.000m2 segundo o Google Earth. A princípio, de cima da caixa d´água, não conseguimos identificar com precisão de onde exatamente vinha o sinal. Ele parecia um pouco difuso. Já usamos várias vezes essa antena direcional portátil em caças a raposa e seu comportamento parecia bem mais diretivo que naquelas ocasiões.
Resolvemos então pegar o carro e circular a empresa na esperança de identificarmos algo mais específico como fonte do sinal. Ao passarmos pela rua de trás da empresa, com o rádio do carro sintonizado em 146.170MHz e squelch aberto, percebemos o sinal aumentando e paramos. A fonte do problema estava tão na cara que a identificaríamos até mesmo sem a direcional. Rapidamente com a antena portátil confirmamos a suspeita. Trata-se de uma câmera de vigilância tipo dome. Note que mesmo distantes pelo menos 10m dela, já que estávamos separados por um muro e ela estava no alto, seu sinal era muito forte.
Filosofamos um pouco e parecia uma teoria plausível que essa câmera já estava ali há algum tempo e possivelmente apresentou defeito nos últimos dias, bastando sua substituição para nos livramos do problema. Nada mais equivocado.
Entramos no carro e fomos em direção a portaria que ficava do lado oposto do quarteirão. Desvendado o mistério, tentaríamos obter com os vigias algum contato para que pudéssemos discutir o assunto com alguém da empresa. Mas durante o curto trajeto, com o receptor do rádio do carro ainda ligado, nos deparamos com outra portadora semelhante. Descemos do carro e imediatamente avistamos outra câmera igual e que também gerava interferência na mesma frequência.

A essa altura nossa teoria já tinha ido por água abaixo. Não se tratava de uma câmera defeituosa, mas de câmeras provavelmente não homologadas que não passaram por testes de EMI (Interferências eletromagnéticas) e se comportavam como transmissores de VHF. Continuamos nosso trajeto com destino à portaria e como não há nada tão ruim que não possa piorar, ao estacionarmos, outro sinal forte no receptor. Nos deparamos com mais uma câmera bem na portaria (foto 3). Essa emitia nada menos do que -53dBm (S9+50dB)! Três câmeras emitindo em 146.170MHz! Isso explicava a dificuldade em achar a direção precisa com a antena direcional. O sinal não vinha de apenas uma fonte, mas de várias!
A essa altura nossa teoria foi por água abaixo. Não se tratava de uma câmera defeituosa, mas de câmeras provavelmente não homologadas que não passaram por testes de EMI (Interferências eletromagnéticas).
Continuamos nosso trajeto de destino à portaria e como não há nada tão ruim que não possa piorar, ao estacionarmos, outro sinal forte no receptor. Nos deparamos com mais uma câmera bem na portaria. E essa não era apenas um S7, mas um S9+50dB! Isso explica o sinal difuso que recebemos no topo da caixa d´água. Não vinha de apenas uma fonte, mas várias!
Conversamos com os vigias e nos confirmaram que as câmeras foram instaladas há poucos dias por uma empresa de segurança. Inclusive nos apontaram mais duas que não havíamos notado. Não era para menos não conseguir operar a repetidora, afinal, eram quatro fontes de interferência a menos de 200m da antena da repetidora com visada direta. Os vigias foram extremamente atenciosos e nos forneceram o e-mail do responsável pela segurança. O próximo passo seria tentar marcar uma reunião para comunicar o problema e encontrarmos uma solução pacífica. Todos sabemos que esse tipo de problema não acaba bem para os responsáveis pela interferência. Afinal, se não conseguíssemos que o sinal interferente cessasse, seriamos obrigados a protocolar queixa na Anatel já que a frequência em questão é licenciada nessa região para o CRAM. E a Anatel entrando na jogada, todas as câmeras seriam confiscadas e a empresa provavelmente teria que responder judicialmente por utilizar equipamentos não homologados causando interferências. Veja: Anatel apreende equipamento que causava interferências no aeroporto.
Finalizada investigação, passamos as informações para o Adinei, PY2ADN, nosso diretor social, que entrou em contato com a empresa e agendou uma primeira reunião. Nesse primeiro encontro Adinei expos os fatos ao chefe da segurança e a um diretor. Eles compreenderam a gravidade da situação, mas solicitaram uma demonstração do problema na presença de representantes da empresa de segurança, já que eles não tinham embasamento técnico para uma demanda desse tipo. Essa segunda reunião foi então agendada e eu fui convidado a participar para dar as explicações técnicas e demostrar nossas alegações.
No dia combinado, eu e o Adinei fomos recebidos novamente pelo gerente da segurança e por dois diretores. Reunidos numa sala de reuniões e enquanto aguardávamos os representantes da empresa das câmeras, explicamos aos presentes sobre o funcionamento da repetidora, sobre o processo da investigação entre outros detalhes. Pouco antes dos representantes chegarem, para nossa surpresa, soubemos que não eram da empresa que vendeu e instalou as câmeras, mas de outra porque a primeira não respondia mais as chamadas.
Fomos então a campo e paramos na primeira câmera. Pudemos demostrar a eles com a direcional portátil e o HT que o sinal em questão se originava da câmera dome. Solicitamos que técnico da empresa de segurança subisse no poste e desconectasse a fonte de alimentação. Dessa forma poderíamos identificar se o problema era realmente a câmera ou quem sabe fosse a fonte de alimentação. Se fosse a fonte, a interferência continuaria e a solução seria bem mais simples. Mas infelizmente a interferência desapareceu assim que foi desligada a fonte e concluímos que era a câmera mesmo. Embora ainda houvesse uma possibilidade. E se fosse a fonte, mas o problema só ocorresse durante consumo de corrente? Teríamos ou que substituir a fonte por outra ou ainda utilizar uma bateria. Por sorte o técnico tinha uma bateria e veio a certeza, era definitivamente a câmera mesmo.
Imediatamente o diretor deu ordem para o técnico desligar todas as câmeras que nós aprontássemos como fonte de interferência. Nos agradeceu e deixou o grupo. Daí em diante, acompanhados pelo gerente da segurança e técnicos, fomos aos locais de instalação de cada uma das câmeras tipo dome. Ao final, eram seis câmeras que causavam a interferência. Assim que a última foi desligada, a sensibilidade da repetidora voltou ao normal. Agora devem substituir todas essas câmeras dome por outras de melhor procedência. Nos convidaram a averiguar se as novas não causarão interferências no espectro radioelétrico. Certamente teremos prazer em ajuda-los na avaliação das novas câmeras e assim ajudar a proteger nosso espectro.
Felizmente o problema foi solucionado sem a necessidade de acionarmos a Anatel, o que certamente atrasaria em alguns meses o reestabelecimento da repetidora que mais utilizamos e traria aborrecimentos maiores para a empresa.



Edgard Pakes
May 23rd, 2016
Good job!
Edgard PY2GOD
Franco
Jun 2nd, 2016
Bom trabalho, rapazes.
Estou aguardando os desdobramentos.
73,
Franco PU2SFX
José Luiz Ures
Jun 7th, 2016
Mais um mistério radioamadoristico.
Aqui proximo ao meu condominio,tem uma mini rodoviária improvisada,onde estacionam varios onibus equipadas com cameras.Ao passar por lá ,meu S meter vai a final de escala,encobrindo qualquer repetidora .Provavelmente,deve ser essas câmeras não homologadas.
Abs
PY 1JU
Pedro Besse
Jul 23rd, 2016
Olá amigos.
Vocês foram um grande incentivo para eu me tornar radioamador, sou um grande fã.
Estamos com saudades do CRAM TV e estamos anciosos por novos epsódios.
Parabéns pela matéria.
Pedro Besse PU8MAC – 73
James Carvalho
Aug 7th, 2016
Ola Joao, vi uma materia em outro site onde vc cita que tem como fazer o ajuste de duplexadores sem os instrumentos especifico,moro aqui no interior se sao paulo e vo monta um pequeno repetidor vhf ,se tiver como você me explicar fico muito agradecido
Fabio Bueno
Aug 26th, 2016
Apenas eu adendo uma explicação ao artigo em relação ao bip ter desaparecido. Conhecida características da elektra 2000. Ao operar com decodificador subaudivel e com entrada de COR, se houver sinal de SQL que deixe o COR com sinal de atividade, o BIP desaparece. Até solicitaria que em próximas versões de SW, se houver na versão 2000, que o BIP saia normalmente, pois ao ATIVAR o decodificador SUBAUDIVEL, ele que tem que reger integralmente a repetidora. Abraços PY2 FI.
PY2FI - Fabio Bueno
Aug 26th, 2016
Vários relatos idênticos, inclusive uma que eu li sobre uma camera que interferia no AEROPORTO DE CONGONHAS.
http://www.cram.org.br/wordpress/?p=3536